(VÍDEOS) As declarações de Sá Pinto sobre o Irão que estão a correr mundo

Ricardo Sá Pinto deixou o comando técnico do Esteghlal em fevereiro e abandonou o Irão há uma semana, em pleno clima de conflito armado. Em entrevista à RTP Notícias, o treinador português, de 53 anos, descreveu o ambiente vivido no país antes da ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel, admitindo que o agravamento da situação já era expectável.
“Já sentia há que podia acontecer há algum tempo [escalar dos conflitos]. Com o contacto que tinha na embaixada fui entendendo isso, era uma questão de tempo (…) É tudo muito restringido e difícil de viver, principalmente para pessoas europeias como eu, que não estamos habituadas a este regime”, começou por afirmar.
O técnico relatou ainda episódios de repressão e censura, garantindo que a dimensão da violência foi superior à que chegou à Europa: “Tive jogadores que tiveram problemas por fazerem posts. Nestas manifestações falam-se de 20, 25 mil mortos? Não! Foi mais do dobro. Muitas imagens e vídeos infelizmente não chegaram à Europa porque foi realmente uma catástrofe, foi algo indescritível, e também foi um bocadinho a partir daí que a minha motivação, a minha vontade de continuar, de estar, a minha alegria, perdeu-se. Foi-se perdendo, foi terrível.”
Sá Pinto considera que a maioria da população acredita numa mudança iminente: “90 e tal por cento das pessoas, enfim, há aquelas pessoas que são realmente religiosamente fanáticas e que acreditam no que acham que têm que acreditar, mas uma pessoa minimamente equilibrada emocionalmente percebe e sabe que nos tempos de hoje é inadmissível viver-se com estes constrangimentos todos, com estas regras absurdas, com esta falta de liberdade, enfim, e que é demais. Houve aqui alguma permissão em relação às mulheres, um bocadinho mais de liberdade na forma como utilizavam o lenço, já não era obrigatório quase, mas tudo o que são regras ao nível do dia a dia, enfim, de poderem falar ou dizer livremente o que acham… A nível também do que são os divertimentos: não têm discotecas, não se pode beber um copo de vinho ou um copo de cerveja na rua, num restaurante, enfim, é tudo muito restringido e muito difícil de se viver, principalmente para as pessoas europeias como eu, que não estamos habituados a este regime, a esta forma de viver”, sustentou.
O antigo treinador do Sporting reforçou a convicção de que o cenário poderá mudar em breve: “O povo não está a ir muito para a rua, mas está a defender-se e não quer sair de lá porque acha que vai mesmo acontecer. Vai mesmo acontecer e está toda a gente preparada para que nas próximas semanas o Irão se torne independente e se torne uma sociedade normal.”
Por fim, recordou os momentos mais duros que viveu já após o início da repressão: “No primeiro momento não queria deixar a equipa, mas o pós foi terrível. Quando estas ações começaram, não foi uma situação circunstancial, foram dias e dias a matarem crianças, jovens, mais de 50 mil pessoas morreram por se manifestarem pacificamente (…). Tive elementos da equipa técnica que regressar aos seus países e não voltaram, jogadores estrangeiros que foram e não voltaram”, concluiu.





